A retomada do turismo e da hotelaria, entrevista com José Odécio – Presidente da ABIH-RN

Com a pandemia do novo coronavírus, 2020 tem sido um ano difícil para diversos setores econômicos, mas no topo dessa lista está a indústria do turismo, que compreende a hoteleira, setor de eventos, bares e restaurantes, receptivos e passeios. Desses a hotelaria é ainda mais afetada, tendo em vista as suas infraestruturas e o grande número de funcionários. Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens Serviços e Turismo (CNC), calculam que desde o início da pandemia o turismo já acumula perdas da ordem de 121,97 bilhões de reais, e, que, neste mesmo período, mais de 275 mil postos formais de trabalho foram extintos.

No Rio Grande do Norte, em especial na cidade de Natal, uma das capitais do país onde a hotelaria sempre assumiu um papel de destaque para a economia local, está vivendo uma crise nunca antes vista, onde as sequelas para o setor ainda hão de ser quantificadas, haja vista que a crise ainda perdura, e para o turismo, infelizmente, demorará um pouco mais. Estudo da Fundação Getúlio Vargas indica que o turismo somente retornará aos patamares de março/20 somente em novembro/21.

Nesse período de Pandemia, algumas instituições não governamentais ganharam seu destaque face ao trabalho que vem realizando na defesa do seu setor, com vistas ao enfrentamento da crise, buscando alterativas de atenuar as perdas, que foram muito altas, e traçando diretrizes na busca de soluções para que as empresas possam manter suas atividades e os empregos.

Presidente desde 2015 da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio Grande do Norte (ABIH-RN), advogado e empresário hoteleiro no município de Tibau do Sul/Pipa-RN, José Odécio Junior é, atualmente, uma das vozes mais influentes do turismo regional, e vem participando, também, como diretor da ABIH Nacional, do grupo G8 (Grupo de Associações do setor de turismo a nível nacional, que reúne Hotéis, Resorts, Parques, Navios, Eventos, Agências de Viagens e Destinos), grupo esse que discute as questões do setor de turismo a nível nacional. Nessa entrevista, ele fala um pouco sobre a situação e as dificuldades que a hotelaria está enfrentando nesse momento de gradual retomada.

1 – Qual a situação do setor de turismo hoje no RN?

Nos últimos 4 meses o setor vem enfrentando a mais grave crise jamais vivida, e isso teve um impacto avassalador na saúde financeira das empresas, o que gerou, conforme pesquisa entre os nossos associados, o desemprego de mais de 60% da mão de obra do setor. Hoje estamos ainda com mais de 60% dos hotéis fechados, e os que abriram tem baixíssima taxa de ocupação, não superando os 10%. Estimamos até agora uma perda de receita de mais de R$300 milhões, e projeção de perdas ainda de mais de R$450 milhões até o final do ano se a crise perdurar, com o risco de falência de muitas empresas.

2 – Quais as dificuldades da hotelaria para essa retomada?

Primeiro, o alto custo dos hotéis para colocar-se em operação, haja vista os 4 meses de paralização e os protocolos que tem de adotar, além dos custos operacionais. Segundo, nessa retomada, somente teremos o turismo regional, que não sustenta a demanda que possuímos, assim, mesmo que os hotéis estejam abertos, até que voltemos a ter mais voos, e, em consequência os turistas de outros estados mais distantes, os hotéis, se abertos, irão operar no prejuízo, razão pela qual os grandes hotéis não veem perspectiva de abertura, e aguardam por condições mais favoráveis.

3 – Qual a expectativa para recuperação econômica do setor?

O setor de turismo, em especial a hotelaria, terá uma curva de recuperação em L, ou seja, irá passar um tempo maior para voltar aos patamares de antes da crise. Como disse anteriormente, a Fundação Getúlio Vargas projeta uma plena retomada somente em novembro de 2021, até lá teremos de conviver com uma realidade bem difícil de baixa ocupação, com alguns picos, mas sem muita relevância, devendo os empresários terem muita consciência do momento para manter suas empresas vivas.

4 – Por que a hotelaria de Natal adiou mais uma vez sua abertura?

Como dito acima, sabemos que nesse reinicio apenas o turismo regional terá mais relevância, e com isso, a demanda de turistas será menor que a oferta de leitos, e assim, abrir um hotel, com os altos custos da retomada e da operação, é muito arriscado. É preciso que tenhamos mais demanda de turistas para que os hotéis possam ter confiança e voltem suas operações. Adicionalmente, temos esse problema do aeroporto que gera mais desconfiança no setor e mais insegurança para todos nós.

5 – O que o RN precisa fazer para reerguer o turismo?

Uma grande campanha para atrair turistas combinada com ações em parceira com as operadoras e também com as companhias aéreas, visando estimular essa retomada, haja vista que as atividades já começaram a retornar e o setor já está preparado para receber os turistas, observando os protocolos sanitários que foram estabelecidos.

6 – Como está a divulgação do destino? Existe alguma ação de marketing?

Até agora ainda não temos nada em concreto. Há uma discussão de uma ação junto a Azul Viagens, que devemos contar com uma parceria da ABIH-RN com o Governo do Estado, Prefeituras de Natal, Tibau do Sul e Maxaranguape.

7 – Como os hotéis oferecerão segurança aos turistas no combate ao coronavírus?

Os hotéis estão cumprindo todos os protocolos exigidos pelas autoridades sanitárias, cujos colaboradores participaram de treinamentos internos e também de capacitações oferecidas pelo SENAC.

8 – São Paulo anunciou o cancelamento do réveillon. Já se fala também em suspender o carnaval 2021. O prejuízo poderá ser ainda maior que o esperado para o turismo brasileiro?

Vejo com preocupação medidas como essas. Trata-se de eventos que vão ocorrer daqui a 5 ou 7 meses. Me preocupa muito a postura de alguns gestores públicos que ao invés de buscar soluções e aprender a conviver com o vírus, plantam terror e criam o caos, causando enormes prejuízos às pessoas e à economia. Devemos buscar soluções para que possamos viabilizar sim as atividades, com responsabilidade e adotando protocolos que visem a segurança sanitária das pessoas.

9 – Como tem sido a realidade das pequenas cidades do RN que dependiam basicamente do turismo, como Tibau do Sul e São Miguel do Gostoso, por exemplo?

Já era hora de retomarmos nossas atividades, e esses municípios vivem basicamente do turismo, e não poderiam se manter fechados pois o custo social e econômico foi bastante impactante. Portanto, foi muito bom que retornássemos. Contudo, não podemos abrir mão dos protocolos de segurança sanitária para mantermos essa abertura de forma a permitir que não tenhamos retrocesso. É preciso que todos, empresários, população e turistas tenhamos consciência do nosso papel nesse processo de retomada da economia.

10 – Pesquisam apontam que o retorno do turismo, será voltado para o turista regional. Esse turista sustenta a hotelaria e o setor?

A nossa oferta de leitos é muito grande e certamente não teremos como supri-la com o mercado regional. Pesquisas apontam que as viagens se darão de carro até um raio de 500km. Portanto, é preciso atrair turistas do Ceará a Alagoas, e assim tentar suprir um pouco dessa oferta que temos. Contudo, ações a nível nacional, junto com operadoras e companhias aéreas se fazem necessário, caso contrário a crise do setor ainda se alongara por muito mais tempo.

11 – Para encerrar, o que o senhor acha que essa pandemia trouxe de mudança para o turismo, principalmente para a hotelaria?

A Pandemia trouxe um enorme prejuízo, abriu uma crise sem precedentes, e muitas empresas não conseguirão se manter de pé. A mudança talvez esteja no hábito do consumidor, na postura das empresas, e espero que mude também a mente dos gestores e burocratas, para que enxerguem o setor como sendo de grande importância, haja vista sua ação de transformação social e econômica, que pode contribuir muito com a geração de empregos e de riquezas. Mas para que isso ocorra, é necessário repensar como o Estado brasileiro (União, Estados e Municípios) pode mudar suas posturas em prol desses propósitos e não nos imponham tantas exigências e burocracia, nos deixem trabalhar.

Fonte: Site ABIH-RN

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